Ilha de Páscoa

Author: Caio_Schiefer
December 29, 2009

Quando a gente planeja uma nova viagem, normalmente escolhemos um lugar onde possamos fugir da nossa rotina, onde possamos aprender sobre outras culturas e entender o impacto delas na humanidade, um local onde se consiga ver paisagens incríveis e que, no final das contas, seja um lugar que talvez nos transforme um pouco em pessoas diferentes das que eramos antes de lá estarmos. A Ilha de Páscoa eleva todos esses desejos à um novo nível e torna a experiência de ter passado por lá uma experiência incrível.


Ahu Tahai – Ilha de Páscoa, Chile

Chegar até lá por si só já é uma experiência interessante, visto que somente a LAN Chile realiza voos regulares até a Ilha de Páscoa saindo de Santiago. São mais de 5 horas de voo desde a capital Chilena até lá, sobrevoando 3,7 mil km do Oceano Pacífico e pousando em um aeroporto, ainda sem muita infra-instrutura para o passageiro, mas com uma pista de pouso que é uma das maiores de todo o Chile e que, desde a década de 80, foi transformada pela NASA em uma pista de emergência para pouso de ônibus espaciais.

O simples fato de estar tão longe do continente já atinge o primeiro objetivo da viagem: fugir da rotina. Rapa Nui é considerada o pedaço de solo mais distante de qualquer outra civilização do planeta (3,7 mil km do Chile e 4 mil km do Taiti), o que certamente é uma experiência completamente diferente da que estamos acostumados, principalmente pra quem leva a vida em grandes centros urbanos. Não preciso nem comentar sobre o céu absurdamente estrelado em um local como esse.


Realmente longe de tudo

Do aeroporto até Hanga Roa, o centro da cidade, são poucas quadras de ruas de terra batida e paralelepípedos. A infra-estrutura da Ilha me impressionou até certo ponto, devido à sua distância até o continente. Existem duas estradas que levam de um extremo à outro da Ilha, também parte em terra batida e parte em um asfalto já desgastado e esburacado, mas ainda assim trafegável. O roaming internacional do meu celular funcionou normalmente por lá, apesar das ligações apresentarem um delay bem grande. É fácil também encontrar locais para se hospedar e comer, apesar do elevado custo de tudo por lá.

Algumas poucas locadoras de carros, em sua maioria de caminhotes 4×4 (sem dúvida uma necessidade, devido ao terreno acidentado de todo o território e de locais de difícil acesso), também existem por lá e na minha opinião é a escolha ideal para quem vai ficar pouco tempo na Ilha de Páscoa. Outras opções seriam a locação de bicicletas, caminhadas e cavalgadas. Como ficaríamos apenas duas noites por lá, a locação de um carro foi essa a nossa escolha.

Grande parte dos atrativos da Ilha certamente são seus Ahus e Moais; convém então explicar um pouco do que eles são na realidade.

A civilização Rapa Nui é considerada extremamente espiritualizada e tem no culto aos seus antepassados sua característica mais importante e peculiar. Os antepassados são representados na forma de estátuas de cabeças enormes e braços colados ao corpo, esculpidas em rocha vulcânica – Essas estátuas são os Moais. Os Moais podem então então ser colocados sobre plataformas cerimoniais, os Ahus, virados para dentro da Ilha como se estivessem olhando e protegendo seus moradores.

O primeiro grande atrativo então é o complexo cerimonial Tahai, consituido de 3 Ahus. Acredita-se que esse complexo estivesse ativo entre os anos de 1000 e 1600 D.C. e, pelo seu tamanho, deve ter sido o mais importante de toda a Ilha quando em funcionamento.


Complexo cerimonial Tahai, com seus 3 Ahus

Do outro lado da ilha encontramos o maior e mais bonito Ahu de todo o território, o Tongariki, uma enorme estrutura com 15 Moais, incluindo um de 86 toneladas, o maior já erguido em toda Rapa Nui. Esse Ahu foi derrubado durante a guerra civil e no início do século XX foi literalmente varrido terra à dentro por uma onda gigante; durante a década de 90 foi quase que totalmente restaurado e reerguido em sua posição original.



Ahu Tongariki, o maior e mais belo de toda a Ilha

As paisagens incríveis continuam quando chegamos ao Parque Nacional de Orongo, onde podemos nos deparar com o vulcão Rano Kau, conhecido principalmente pelo “lago” em seu interior, uma das poucas fontes de água doce da Ilha e que apresenta um micro-clima extremamente favorável para o crescimento de alguns tipos de vegetação. Além do vulcão, outra vista espetacular é das pequenas ilhas de Moto Nui e Moto Iti.

Por estarmos dentro de um Parque Nacional, uma entrada no valor de 10 dólares é cobrada do visitante.



Vulcão Rano Kau e as pequenas ilhas de Moto Nui e Moto Iti ao fundo

Mas a viagem começa a tomar uma nova perspectiva quando chegamos em Rano Raraku, mais um dos 3 vulcões da ilha. É lá que foram criadas quase todos os Moais, esculpidos diretamente na cinza vulcânica compacta das vertentes externas da cratera – lá era a “fábrica” de Moais.

A primeira coisa que surpreende é quantidade de cabeças enormes de Moais que circundam todo o vulcão, mas elas não são na verdade somente cabeças de Moais e sim Moais completos e finalizados que foram, provavelmente, colocados em fossas rasas esperando para serem levados aos seus futuros Ahus. Mas eles nunca chegaram ao seu destino final e acabaram afundando. É possível também encontrar dois Moais ainda não finalizados cravados na cinza vulcânica.



Rano Raraku, seus Moais prontos e um ainda não finalizado

Está claro para os especialistas que esses foram os últimos Moais esculpidos e é justamente no momento em que começamos a pesquisar e entender os motivos que os deixaram simplesmente abandonados por lá, muito provavelmente em um curto espaço de tempo, é que os últimos objetivos da viagem começam a ser atingidos: Entender uma civilização diferente, seus erros e acertos, aprender com sua história para que não repitamos os mesmos erros.

Infelizmente o processo de formação e declínio da civilização Rapa Nui talvez seja o caso mais extremo já documentado de colapso ambiental.

Rano Raraku parece evidenciar o auge da produção de Moais, já que quase metade de toda as estátuas da ilha se encontram por lá, e certamente a produção em massa, o transporte e o levantamento desses objetos devem ter acarretado em um trabalho enorme. Os arqueólogos acreditam que não havia um governo central na Ilha de Páscoa e que na verdade a sociedade era agrupada por grupo de parentesco em clãs distintos. Indícios arqueológicos também levam a crer que os construtores de Moais faziam parte de uma classe privilegiada dentro desses grupos e, estariam assim, isentos das atividades de produção de almimentos, sendo assim sustentados pelos outros membros do clã.

No transporte para os Ahus, os Moais eram deitados e colocados com as costas para baixo. Em seguida eram rolados até seus Ahus sobre tronco de árvores – um processo que levava alguns dias e certamente consumia centenas de árvores.

Em um certo momento então a religião e a competição entre os clãs começaram a se tornar fatores dominantes na sociedade da época e o frágil equilibrio entre fabricação de estátuas e a quantidade produzida de comidas foi afetado. Todas as árvores da Ilha foram derrubadas para se transportar os Moais aos seus respectivos Ahus e isso gerou uma reação em cadeia: Todas as aves migratórias, que serviam de fonte de alimento para os nativos, desapareceram; sem as árvores, a principal matéria-prima para construção de embarcações, a pesca se tornou inviável.

Em pouco tempo uma guerra civíl se instaurou em todo o território. Alguns achados mostram a repentina proliferação de armas durante o século XVIII; mostram também resquícios de crânios despedaçados e o uso indiscriminado de cavernas como refúgio.

Desse momento em diante alguns europeus passaram pela Ilha e documentaram o verdadeiro caos que havia se instalado por lá. Casos de canibalismo, inclusive, foram documentados por eles evidenciando ainda mais a falta de recursos naturais.

Famintos e impossibilitados de continuar seu culto aos Moais, a sociedade estava totalmente enfraquecida e impossibilitada de lutar contra qualquer coisa. Em 1862, traficantes de escravos raptaram quase que a totalidade da pequena população remanescentes na Ilha e completaram o desastre. Uma expedição missionária em 1877 documentou apenas 111 habitantes vivendo lá.

Em um curto período de pouco mais de 100 anos a civilização Rapa Nui foi praticamente extinta por seus próprios erros.

Se o estudo da história serve para não cometermos os mesmos erros novamente, significa dizer que não poderíamos colocar a religiosidade acima do bom senso, que não poderíamos privilegiar certas profissões ou cargos e isentá-los de algumas responsabilidades, que a competição entre países/clãs deve obedecer limites éticos e que, principalmente, devemos trabalhar pela manutenção do equilíbrio ambiental.

Foram esses os fatores que levaram a civilização Rapa Nui praticamente à extinção. E parece que não aprendemos nada com a história deles.


Ahu Tongariki ao amanhecer

Minha Viagem
Hotel: Cabanas Vai Moana
Mais Fotos: Caio no Multiply
Passagens: Porto Alegre -> Santiago (Pluna – USD 399), Santiago -> Ilha de Páscoa (LAN Chile – USD 503)




3 Responses to “Ilha de Páscoa”

  1. Sidney Says:

    Acho a história da ilha de páscoa realmente muito impressionante. Em 2010, aumentarei minha contribuição para não termos o mesmo destino. :-)

  2. Catarina Says:

    Olá!
    O teu Blog é incrivel!!! Estou fascinada e por isso mesmo gostava de fazer-te uma proposta!
    O meu nome é Catarina e a proposta que quero fazer-te em nome de minube tem tudo a ver contigo! Por favor entra em contacto comigo, catarina@minube.com!
    Obrigada!!

  3. Claudio Marcondes Says:

    Caio,
    parabens, um ótimo resumo sobre a Ilha da Pascoa e sua historia. Estive lá em 1979, abraços
    Claudio Marcondes Machado

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